sexta-feira, 18 de março de 2011

TERRÍVEL INCIDENTE

João 7.53 a 8.1-11

O Japão foi recentemente assolado por um terrível incidente - vários terremotos acompanhados de um gigantesco tsunami que resultou em perdas, destruição, mortes; muito medo, dor e sofrimento.

No texto acima os homens que foram enviados para prender Jesus voltaram perplexos e de “mãos vazias”. Assim sendo, a reunião do sinédrio judaico foi cancelada e os seus respectivos membros retornam para as suas casas (7.53).

A multidão, também, começa a voltar para a sua casa após a Festa dos Tabernáculos, entretanto, Jesus vai para monte das Oliveiras - 1Jesus, porém, foi para o monte das Oliveiras, e pela manhã se dirige ao templo (ao átrio exterior do templo) - 2Ao amanhecer ele apareceu novamente no templo, onde todo o povo se reuniu ao seu redor, e ele se assentou para ensiná-lo (era costume dos mestres falar assentado e o povo em pé, cf. Mt 26.55, Lc 4.20, At 16.13...). Diz D.A. Carson (João, 2007, p. 335) que “[...] O pátio externo servia como ponto de encontro para muitos escribas reunirem seus alunos ao redor deles e expor a lei. Jesus usava as mesmas instalações, mesmo que seu conteúdo não pudesse facilmente ser comparado com o que os outros ensinavam...”.


Para os líderes judeus o incidente é uma excelente ocasião para surpreender Jesus. Para o Mestre é uma excelente ocasião para ensinar sobre o Reino de Deus.


Geograficamente, a província da Judéia pertencia à província da Síria; a população de Jerusalém era de 25 a 30 mil habitantes; o total dos sacerdotes e levitas eleva-se a 18 mil aproximadamente; os essênios contavam com 4 mil membros (Jeremias, 1983, p. 11). O período do texto está contido no ministério posterior da Judéia (Silva, 1963, p. 75), “[...] um período de três meses, aproximadamente, que vai da Festa dos Tabernáculos à da Dedicação, no ano 29 A.D. ou, possivelmente um ano mais cedo...”.


O período de conflito (7.1 a 11.53) precipita para uma crise sem precedentes devido ao crescimento dos discípulos de Cristo. Estes seguidores, mesmo com fé hesitante, podem ser contrastados com o cinismo dos irmãos de Cristo, com a ondulante lealdade das multidões desnorteadas e com a venenosa oposição da hierarquia judaica (Tenney, 1984, p. 202).


A história relatada (7.53 a 8.1-11) está em conchetes. J.C. Ryle (João, 1957, p. 112) diz: “[...] A narração, que exordia o capítulo oitavo dêste Evangelho, é um tanto peculiar. De algum modo é única no seu gênero; e não há outra, nos quatro Evangelhos que lhe seja perfeitamente análoga. Houve em todos os séculos pessoas de ânimo escrupuloso, que se detiveram diante desta passagem e duvidaram que realmente tivesse sido escrita por S. João. Não é fácil, porém, achar-se uma razão, que justifique tais escrúpulos. Supor, como houve quem ousasse, que esta passagem dissimula ou encobre o adultério, e que Nosso Senhor desconsiderou o sétimo mandamento, é, sem dúvida, imperdoável equívoco. A narrativa em nada justifica semelhante suposto. Nem uma frase sequer o apoia...”.


Há respeitadas conclusões sobre a inserção desse texto como a de Hendriksen (João [vol.1], 2004, p. 368):


“[...] a história aqui registrada realmente aconteceu e, não contêm nela nada que esteja em conflito com o espírito apostólico. Consequentemente, em vez de remover esta seção da Bíblia, ela deve ser mantida e usada para nosso benefício [João Calvino]. Os ministros não precisam temer basear seus sermões nesta passagem. Por outro lado devem informar a todos os fatos a respeito da evidência textual...” e a de D.A. Carson (João, 2007, p. 334) - “[...] não há muitos motivos para duvidar que o evento aqui descrito ocorreu, mesmo que ele, no início, em sua forma escrita, não pertencesse aos livros canônicos...”


Será que devemos desconfiar desse e de outros textos bíblicos?


“[...] não há base para duvidar-se de nosso conhecimento quanto ao conteúdo dos manuscritos originais do Novo Testamento... Mas estimativas do grau de certeza de nosso conhecimento do Novo Testamento invariavelmente chegam perto dos 100%”. Devemos estudar o Novo Testamento para evitar a tirania de opiniões pessoais preconcebidas, para evitar o engano da dependência excessiva do Espírito Santo e para permitir uma interpretação histórico-teológica do Novo Testamento, pois Deus usou meios históricos e teológicos para comunicar a sua verdade (Yarbrough, 2002, p. 29-32).


É como se os detalhes fizessem toda a diferença, pois “[...] Quanto mais completamente se estudam os detalhes, tanto mais claro se torna como cada parte do Evangelho, contribui de algum modo para a realização do propósito e está incluído no plano do Evangelho...” (Thomas, 1953, p. 47). O importante nos textos do Evangelho de João é que eles ressaltam a pessoa do Messias, o Filho de Deus, perfeitamente homem e perfeitamente Deus: “[...] Concebe a Jesus Cristo como sendo o pré-existente Verbo de Deus, o agente do Eterno Pai na criação, na revelação e na redenção; não Lhe ressalta, porém a divindade em detrimento da humanidade...” (Bruce, 1965, p. 75-76).


Quais as lições que podemos tirar dos indicentes?




Primeiro, UM INCIDENTE É UM TEMPO QUE FAVORECE A BUSCA DA VERDADE E DA JUSTIÇA (vs. 3-5, NVI): Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério. Fizeram-na ficar em pé diante de todos e disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério. Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz?”.


Esse incidente mostra que os escribas e fariseus tinham uma motivação, mas essa não era legítima. O momento era, então, de busca da verdade e da justiça.


“[...] Os acusadores de Jesus tentaram envolvê-lo nos meandros de um dilema. Se Ele recomendasse a pena de morte, de acordo com a legislação mosaica, poderiam acusá-Lo de voltar-se contra as autoridades romanas, as quais tinham proibido os judeus de imporem a pena de morte. E se Ele não recomendasse a pena de morte, poderiam destruir a reputação de Jesus, anunciando ao povo que Jesus não era leal à lei de Moisés...” (Gundry, 1978, p. 176).


Um incidente favorece momentos de buscar a verdade e a justiça de Deus (não a nossa). Ele é o justo e reto juiz - Deuteronômio 32.4 diz: Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e reto”.




Segundo, UM INCIDENTE É UM TEMPO DE REFLEXÃO CONSCIENTE (vs. 6-8, NVI) - "Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acusá-lo. Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo. Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”. Inclinou-se novamente e continuou escrevendo no chão".


Nosso Senhor aqui, pela reflexão consciênte, argúi a consciência de seus exatores, e, mostra qual era a real motivação dos seus corações. A noção correta de pecado faz com que seja feita a justiça devida. “[...] Pecado... para Jesus, não consiste apenas em atos contrários à lei de Deus, mas também os sentimentos íntimos que geram o pecado (Mateus 5.27-28). Com isso tornou Ele o cumprimento da lei, am algo diferente (Mateus 19.17-20). A hipocrisia é terrivelmente condenada (Mateus 6.2,18)...” (Ferreira, 1985, p.122). Os líderes judeus estavam mais dispostos a processar a Jesus do que a mulher pecadora (Taylor, 1943, p. 250).


Era costume que o acusador mais idoso fosse o primeiro a atirar a pedra. A tensão da situação, então, passa de Jesus para o “mais idoso”. Jesus depois da frase bombástica - “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”, se inclina novamente e continua escrevendo no chão.


Supõem alguns que: 1)Ele escrevia na terra os textos de Lv 20.10 e Dt 22.22, como se indagasse os líderes judeus; 2)Ele apenas tomara aquela atitude como uma alusão ao Salmo 73.27 - Os que se afastam de ti, eis que perecem; tu destróis todos os que são infiéis para contigo; 3)Ele não quis dizer nada com essa atitude de escrever na areia; apenas silenciou-se e evitou manifestar qualquer juizo de valor sobre o incidente. Talvez essa última seja a mais provável. J. Wright (in Mission and Message of Jesus, p. 795; citado por F. Davidson (1972, p. 1080)), diz: “[…] A verdade de Jesus repreendeu a mentira nos escribas e nos fariseus; a pureza de Jesus consenou a sensualidade da mulher...”.




Terceiro, UM INCIDENTE É APORTUNIDADE PARA ARREPENDIMENTO (vs. 9-11, NVI) - "Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez, começando pelos mais velhos. Jesus ficou só, com a mulher em pé diante dele. Então Jesus pôs-se em pé e perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou?”“Ninguém, Senhor”, disse ela. Declarou Jesus: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado”".


Jesus a justificou a mulher não a condenando, mas exortou-a a que seguisse a sua vida e abandonasse o pecado. “[...] O arrependimento requer fatos; são estes o verdadeiro distintivo do “arrependimento para a salvação”. Enquanto o homem não tiver deixado o mal e abandonado os seus pecados, não se pode dizer que está verdadeiramente arrependido...” (Ryle, 1957, p. 114). A mulher “[...] nenhum sinal de arrependimento deu. Desapareceu simplesmente...” (Taylor, 1943, p. 250).


Ora, é imperioso abandonar pesos e pecados - Hebreus 12.1-3: “Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma”.


Que o Senhor seja glorificado!






Obras Citadas

Bíblia Nova Versão Internacional (versão digital).
Bíblia Online (2002, versão 3.0). Edição Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil.
Bruce, F. (1965). Merece Confiança o Novo Testamento? São Paulo: Edições Vida Nova.
Carson, D. (2007). O Comentário de João. São Paulo: Shedd publicações.
Davidson, F. (1972). O Novo Comentário da Bíblia. São Paulo: Edições Vida Nova.
Ferreira, W. d. (1985). Esboço de Teologia Bíblica do Novo e Velho Testamentos. Campinas: Luz para o Caminho.
Gundry, R. H. (1978). Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova.
Hendriksen, W. (2004). Comentário do Novo Testamento - O Evangelho de João. São Paulo: Cultura Cristã.
Jeremias, J. (1983). Jerusalém no Tempo de Jesus. São Paulo: Edições Paulinas.
Ryle, J. (1957). Comentário do Evangelho Segundo São João. São Paulo: Imprensa Metodista.
Silva, G. R. (1963). Sinopse da Vida de Cristo e da Vida de Paulo. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista.
Taylor, W. C. (1943). O Evangelho Segundo João [vol. III]. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista.
Tenney, M. (1984). O Novo Testamento - Sua Origem e Análise. São Paulo: Edições Vida Nova.
Thomas, W. G. (1953). Como Estudar os Quatro Evangelhos. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana.
Yarbrough, W. A. (2002). Descobrindo o Novo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã.

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